sexta-feira, 22 de abril de 2016

A Crise Política e a Cultura do Medo na Internet: O Foro de São Paulo


A CRISE POLÍTICA E A CULTURA DO MEDO NA INTERNET: O FORO DE SÃO PAULO
Marcos Emílio Ekman Faber
Nos últimos dias tenho sido questionado por alunos, amigos e colegas sobre uma série de informações relacionadas à crise política brasileira. Na maioria dos casos se tratam de notícias que estão sendo divulgadas pela internet, especialmente via Facebook.
De todas elas, a que mais me deixou intrigado foi a relacionada ao Foro de São Paulo. Confesso que nunca dei muita importância a esse fórum, entretanto como fui diversas vezes confrontado sobre a sua importância política atual, resolvi pesquisar um pouco além daquilo que já sabia.
Contudo, acabei constatando que não havia muito o que “descobrir” sobre o Foro. Mas, para minha surpresa, pude “descobrir” o que os opositores do governo Dilma e demais grupos conservadores insinuam que o Foro de São Paulo seja.
Mas antes de escrever sobre isso, quero mudar um pouco de assunto.
Na década de 1920, logo após a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha viveu um processo doloroso de reconstrução. A crise política gerada pela derrota na Guerra, proporcionou um acalorado embate entre diferentes ideologias políticas sobre os destinos da Germânia. A esquerda se dividia entre os comunistas e social-democratas. Os primeiros desejavam uma revolução armada, os segundos defendiam a democracia e a eleição de uma Assembleia Constituinte.
Já a direita, se radicalizava na figura de Adolf Hitler. No discurso nacionalista e ultraconservador do líder nazista, a forma da Alemanha retomar a grandeza passava pela identificação dos seus inimigos. Para Hitler haviam dois diferentes inimigos. Os externos e os internos. Assim, franceses e ingleses representavam os inimigos externos. Comunistas e judeus os internos.
Para qualquer alemão da época era muito fácil entender os motivos de ingleses e franceses serem identificados como inimigos. Já quanto aos comunistas, o medo do controle soviético se encarregava de ser o suficiente. Mas como justificar que os judeus (que tinham cidadania alemã e que na verdade eram alemães) poderiam ser classificados como inimigos do país?
Para isso, os nazistas fizeram uso de uma série de calúnias e difamações aos judeus. Para eles os judeus eram os responsáveis pelo comunismo. Hitler utilizava constantemente a expressão ”o comunismo judeu”, numa clara alusão ao fato de Karl Marx, o “pai” do comunismo, ter origem nesta etnia.
Mas contraditoriamente, os nazistas também afirmavam que os judeus eram os grandes “especuladores” da economia alemã, já que eram donos de várias fábricas, bancos e empresas importantes da época.
 Curiosamente as duas acusações entravam em grande conflito. Afinal, como alguém pode ser comunista e capitalista ao mesmo tempo?
Para justificar tais acusações, os nazistas utilizaram os Protocolos dos Sábios do Sião. Um documento falsificado, mas que foi divulgado como verdadeiro. Segundo este documento, as principais lideranças judias conspiravam para conquistar o mundo, destruindo a civilização ocidental.
Mesmo que essa história pudesse ser facilmente desmentida, agora os nazistas tinham uma justificativa para que o judaísmo fosse perseguido e destruído.
Mas voltando ao Foro de São Paulo.
Em março de 2014, o jornalista Felipe Moura Brasil, da Revista Veja, publicou uma extensa matéria intitulada “Conheça o Foro de São Paulo, o maior inimigo do Brasil“. A reportagem iniciava com a seguinte afirmação “O maior inimigo do Brasil e do continente nas últimas décadas precisa ser identificado pelos homens de bem deste país”. Note que na abertura do texto há uma afirmação de que os “homens de bem” precisam identificar quem são os inimigos do Brasil. Alguma semelhança com os Protocolos dos Sábios de Sião?
Curiosamente sempre que o autor deseja dar sustentação ao seu texto, cita a opinião de indivíduos ultraconservadores como Olavo de Carvalho e José Carlos Wagner, mas nunca apresenta um contraponto. Mostra o Foro de São Paulo como uma grande conspiração comunista pronta para dominar as Américas e, claro, o Brasil. E, como em toda grande conspiração, o texto afirma que a intelectualidade de esquerda no Brasil estaria omitindo do grande público a existência desta organização.
Como se isso só já não fosse bastante fantasioso e falso, em outras colunas e blogs da Revista Veja, como as de Reinaldo Azevedo e Augusto Nunes, afirmam que o objetivo do Foro é fazer adeptos entre todos os brasileiros. Começando pelos mais jovens, que seriam doutrinados nas escolas públicas. Segundo os articulistas da Veja, os professores das áreas das ciências humanas estariam fazendo propaganda e doutrinação do ideário comunista no país.
Isso tudo é bastante ridículo e facilmente desmentido. Contudo, as redes sociais estão repletas destas fantasias sendo propagadas e afirmadas como se fossem verdades.
Mas afinal o que é o Foro de São Paulo? Como contraponto as afirmações da Revista Veja, transcrevo a versão de outra importante publicação semanal, a Revista Carta Capital, que afirma que o Foro de São Paulo “é um fórum de debates que discute as alternativas à visão neoliberal da economia e da política. Esses grupos e partidos de esquerda trocam experiências e conhecimento a respeito de como construir políticas sociais. Explico melhor: no final dos anos 80, com a queda da União Soviética, parecia que a esquerda estava destinada a acabar. Alguns até sugeriam que a visão neoliberal da sociedade – baseada na utopia de que o livre mercado seria capaz de promover crescimento econômico para todos – era o “fim da história”. O Foro surgiu justamente para oferecer um contraponto a essa visão”.
Também é de extrema importância ressaltar que o fato de um partido político estar ligado a uma associação de partidos é algo bastante comum. Na verdade incomum é quando um partido político está isolado de seus correspondentes internacionais. Por isso, dentro desta perspectiva, o PDT é membro da Internacional Socialista, o PSDB e o DEM estão ligados à Internacional Democrata Centrista, o PSTU à Quarta Internacional e assim por diante.
Para finalizar, se o Foro de São Paulo é, como tantas outras organizações, apenas um fórum de contraponto às políticas neoliberais, por que os setores conservadores brasileiros promovem “fantasias conspiratórias” a seu respeito?
Foi por esse motivo que contei a história da justificativa nazista à perseguição aos judeus. Afinal, um inimigo precisava ser identificado para que a perseguição aos semitas fosse aceita. A caça ao inimigo necessitava de uma justificativa, necessitava que existissem os “Protocolos dos Sábios do Sião”.
E o Foro de São Paulo é apenas mais uma destas tantas falsas justificativas que os setores conservadores da sociedade estão utilizando para tomarem o poder de forma não democrática.
Portanto, se você não está satisfeito com o governo petista, vote noutro partido na próxima eleição. Mas respeite a decisão das urnas. Não dê voz a mentiras ou preconceitos. Pense por você mesmo, reflita, leia, pesquise. Não acredite em qualquer coisa, principalmente quando a única fonte que você possui sobre aquela notícia é o Facebook.



www.historialivre.com/blog

sexta-feira, 18 de março de 2016

A Grenalização da Política Brasileira



A Grenalização da Política Brasileira
Marcos Emílio Ekman Faber
Dia 06 de março, na Arena do Grêmio, em Porto Alegre, ocorreu o GreNal de número 409. A partida terminou em 0 a 0. Mas o que marcou o jogo foi um lance envolvendo jogadores de ambas as equipes. No lance, William, do Internacional, acertou uma cotovelada no rosto do jogador Miller Bolaños do Grêmio. Como consequência o atleta gremista teve uma dupla fratura na mandíbula. Ficará fora dos gramados por 45 dias.
Após o lance, o atleta colorado sequer foi advertido com cartão. Na verdade, o juiz marcou falta de Bolaños sobre William.
Nas redes sociais torcedores gremistas acusaram William de ser um criminoso. Que a atitude do colorado fora covarde. Os mais exaltados defendiam a exclusão do atleta do futebol. As declarações dos dirigentes do Grêmio endossavam tais manifestações. De “cabeça quente” declararam que iriam processar criminalmente o jogador do Internacional.
Do outro lado, torcedores colorados afirmavam que a lesão de Bolaños teria sido um “acidente de trabalho”, afinal o lance tinha sido uma jogada “normal” de jogo. O presidente do Internacional, Vitorio Piffero, chegou a afirmar que era impossível o atleta gremista ter sofrido uma lesão tão grave num lance como aquele.
A mídia gaúcha dividiu opiniões. Comentaristas declaradamente gremistas acusavam William de criminoso, jornalistas colorados defendiam o atleta.
Mas e se fosse o contrário? E se Bolaños tivesse acertado uma cotovelada em William. Sei que não existe “se” no futebol. Mas, cabe a reflexão, afinal, as opiniões seriam as mesmas? Ou as opiniões são orientadas pela opção clubística?
Como ouvi numa emissora de rádio “neste baile não existem virgens”.
No Rio Grande do Sul, quando as opiniões de um torcedor (ou dirigente) são orientadas pela camisa do clube que torce, chamamos isso de Grenalização.
Mas, mudando um pouco de assunto.
A política brasileira está tomando caminhos muito perigosos. As manifestações pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff estão se radicalizando.
Ontem, ouvi pelo rádio que aproximadamente três mil manifestantes estavam no Parcão (Parque Moinhos de Vento) em Porto Alegre. Os manifestantes gritavam “Quem não pula é comunista! Quem não pula é comunista!”.
Confesso que não entendi para quem eram aquelas palavras. Será que esses manifestantes acham que Dilma e Lula são comunistas? É sério isso?
Em São Paulo, as câmeras da BandNews flagraram pedestres serem agredidos por estarem usando camisa vermelha.
Quando a gravação do “grampo” entre Dilma e Lula foi noticiado, eu estava em sala de aula. Coincidentemente estávamos debatendo o conceito de liberdade. Eu e meus alunos ouvimos buzinas, gritos e fogos de artifício. Um aluno engraçadinho logo gritou “Gol do Grêmio” outro disse “Alguém tá fazendo batuque (candomblé)”, caímos na risada. Aproveitei o “gancho” para afirmar “seja o que for, apenas demonstra que todos nós temos a liberdade de expressarmos aquilo que acreditamos”. E continuei com a aula.
No intervalo fiquei sabendo que a “comemoração” ocorrera por causa da divulgação da gravação telefônica.
Dia desses um amigo meu me chamou de comunista. Antes que se perguntem, eu respondo: Não, eu não estava falando de Che Guevara. Não, eu não estava defendendo Cuba. Eu apenas afirmei que tínhamos que ter muito cuidado em apoiar um Golpe de Estado como este que está sendo preparado no Brasil.
Pronto, era o suficiente. Pois no entendimento deste meu amigo, eu me tornara um defensor do PT, de Lula, de Dilma e do comunismo.
Será que eu não posso pensar diferente dele? 
O que o fez pensar que eu sou comunista? Me parece bastante óbvio que ele (e os manifestantes do Parcão) não fazem a menor ideia do que é o comunismo.
Mas não se preocupem, eu não vou explicar o que é o comunismo. Entretanto, posso afirmar que eu não sou comunista e também não sou petista. Apenas penso diferente de algumas pessoas.
Mas também posso afirmar que o PT não é e nunca foi comunista. No máximo é de centro-esquerda. 
Mas basta não ser anti-petista ou não ser favorável ao impeachment para ser taxado como “comunista”, “petista” ou, pior ainda, de “petralha”.
Para piorar do outro lado ocorre a mesma coisa.
Não ouvi de nenhum dos lados uma solução para o que está ocorrendo. Os governistas acusam a oposição de golpista. Do outro lado, a oposição não apresenta planos para o futuro do Brasil. Em nenhum momento surgiu alguém disposto a solucionar a crise, apenas para aumenta-la.
No meu entendimento o que está ocorrendo é uma grenalização da política brasileira. Não há mais racionalidade. Não existe mais reflexão. As pessoas estão defendo seu clube/partido independente do que for certo ou errado.
Nenhum dos lados em disputa parece preocupado com o que será do Brasil. Um quer continuar no poder, o outro quer o poder. Se de um lado existem réus de corrupção do outro não é diferente. Pois alguém acredita na inocência de PSDB, PP, DEM, Rede Globo e Revista Veja?
“Neste baile não existem virgens”.
Tanto que o juiz Itagiba Catta Preta Neto (envolvido nos processos contra Lula) postou no facebook: “Ajude a derrubar Dilma e volte a viajar para Miami e Orlando”.
Se entendi bem, “Quem não pula é comunista" e "quem pula vai pra Miami”. É isso?
Se não pensarmos racionalmente repetiremos os mesmos erros de 1937, 1954, 1964, 1989...
www.historialivre.com/blog