sexta-feira, 18 de março de 2016

A Grenalização da Política Brasileira



A Grenalização da Política Brasileira
Marcos Emílio Ekman Faber
Dia 06 de março, na Arena do Grêmio, em Porto Alegre, ocorreu o GreNal de número 409. A partida terminou em 0 a 0. Mas o que marcou o jogo foi um lance envolvendo jogadores de ambas as equipes. No lance, William, do Internacional, acertou uma cotovelada no rosto do jogador Miller Bolaños do Grêmio. Como consequência o atleta gremista teve uma dupla fratura na mandíbula. Ficará fora dos gramados por 45 dias.
Após o lance, o atleta colorado sequer foi advertido com cartão. Na verdade, o juiz marcou falta de Bolaños sobre William.
Nas redes sociais torcedores gremistas acusaram William de ser um criminoso. Que a atitude do colorado fora covarde. Os mais exaltados defendiam a exclusão do atleta do futebol. As declarações dos dirigentes do Grêmio endossavam tais manifestações. De “cabeça quente” declararam que iriam processar criminalmente o jogador do Internacional.
Do outro lado, torcedores colorados afirmavam que a lesão de Bolaños teria sido um “acidente de trabalho”, afinal o lance tinha sido uma jogada “normal” de jogo. O presidente do Internacional, Vitorio Piffero, chegou a afirmar que era impossível o atleta gremista ter sofrido uma lesão tão grave num lance como aquele.
A mídia gaúcha dividiu opiniões. Comentaristas declaradamente gremistas acusavam William de criminoso, jornalistas colorados defendiam o atleta.
Mas e se fosse o contrário? E se Bolaños tivesse acertado uma cotovelada em William. Sei que não existe “se” no futebol. Mas, cabe a reflexão, afinal, as opiniões seriam as mesmas? Ou as opiniões são orientadas pela opção clubística?
Como ouvi numa emissora de rádio “neste baile não existem virgens”.
No Rio Grande do Sul, quando as opiniões de um torcedor (ou dirigente) são orientadas pela camisa do clube que torce, chamamos isso de Grenalização.
Mas, mudando um pouco de assunto.
A política brasileira está tomando caminhos muito perigosos. As manifestações pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff estão se radicalizando.
Ontem, ouvi pelo rádio que aproximadamente três mil manifestantes estavam no Parcão (Parque Moinhos de Vento) em Porto Alegre. Os manifestantes gritavam “Quem não pula é comunista! Quem não pula é comunista!”.
Confesso que não entendi para quem eram aquelas palavras. Será que esses manifestantes acham que Dilma e Lula são comunistas? É sério isso?
Em São Paulo, as câmeras da BandNews flagraram pedestres serem agredidos por estarem usando camisa vermelha.
Quando a gravação do “grampo” entre Dilma e Lula foi noticiado, eu estava em sala de aula. Coincidentemente estávamos debatendo o conceito de liberdade. Eu e meus alunos ouvimos buzinas, gritos e fogos de artifício. Um aluno engraçadinho logo gritou “Gol do Grêmio” outro disse “Alguém tá fazendo batuque (candomblé)”, caímos na risada. Aproveitei o “gancho” para afirmar “seja o que for, apenas demonstra que todos nós temos a liberdade de expressarmos aquilo que acreditamos”. E continuei com a aula.
No intervalo fiquei sabendo que a “comemoração” ocorrera por causa da divulgação da gravação telefônica.
Dia desses um amigo meu me chamou de comunista. Antes que se perguntem, eu respondo: Não, eu não estava falando de Che Guevara. Não, eu não estava defendendo Cuba. Eu apenas afirmei que tínhamos que ter muito cuidado em apoiar um Golpe de Estado como este que está sendo preparado no Brasil.
Pronto, era o suficiente. Pois no entendimento deste meu amigo, eu me tornara um defensor do PT, de Lula, de Dilma e do comunismo.
Será que eu não posso pensar diferente dele? 
O que o fez pensar que eu sou comunista? Me parece bastante óbvio que ele (e os manifestantes do Parcão) não fazem a menor ideia do que é o comunismo.
Mas não se preocupem, eu não vou explicar o que é o comunismo. Entretanto, posso afirmar que eu não sou comunista e também não sou petista. Apenas penso diferente de algumas pessoas.
Mas também posso afirmar que o PT não é e nunca foi comunista. No máximo é de centro-esquerda. 
Mas basta não ser anti-petista ou não ser favorável ao impeachment para ser taxado como “comunista”, “petista” ou, pior ainda, de “petralha”.
Para piorar do outro lado ocorre a mesma coisa.
Não ouvi de nenhum dos lados uma solução para o que está ocorrendo. Os governistas acusam a oposição de golpista. Do outro lado, a oposição não apresenta planos para o futuro do Brasil. Em nenhum momento surgiu alguém disposto a solucionar a crise, apenas para aumenta-la.
No meu entendimento o que está ocorrendo é uma grenalização da política brasileira. Não há mais racionalidade. Não existe mais reflexão. As pessoas estão defendo seu clube/partido independente do que for certo ou errado.
Nenhum dos lados em disputa parece preocupado com o que será do Brasil. Um quer continuar no poder, o outro quer o poder. Se de um lado existem réus de corrupção do outro não é diferente. Pois alguém acredita na inocência de PSDB, PP, DEM, Rede Globo e Revista Veja?
“Neste baile não existem virgens”.
Tanto que o juiz Itagiba Catta Preta Neto (envolvido nos processos contra Lula) postou no facebook: “Ajude a derrubar Dilma e volte a viajar para Miami e Orlando”.
Se entendi bem, “Quem não pula é comunista" e "quem pula vai pra Miami”. É isso?
Se não pensarmos racionalmente repetiremos os mesmos erros de 1937, 1954, 1964, 1989...
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domingo, 29 de novembro de 2015

Introdução à Sociologia


INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA

Sociologia. Se buscarmos uma definição num dicionário iremos encontrar algo como “sociologia é a ciência que estuda a sociedade” ou “ciência que estuda os fenômenos sociais”. Entretanto não é tão simples assim. Obviamente sociologia significa muito mais do que isso. E o objetivo deste texto é buscar uma definição desta ciência a partir da análise dos quatro “pais” da matéria: Augusto Comte, Émile Durkheim, Karl Marx e Max Weber.
Augusto Comte e o Positivismo
Como ciência, a sociologia surgiu com o pensador francês Augusto Comte (1798-1857). Comte nasceu em Montpellier em meio a Revolução Francesa, evento que obviamente influenciou os estudos do pensador. Comte iniciou sua pesquisa em meio ao nascimento de uma nova sociedade. Entre tantas transformações sociais nenhuma foi tão radical quanto a passagem da monarquia para a república. Não haviam mais reis, agora a burguesia passava a ditar as regras da sociedade e a controlar a política.
Outra mudança importante foi ocasionada pela industrialização. As fábricas mudavam o ritmo das cidades e o êxodo rural causava conflitos no meio urbano. Foi dentro desta realidade que a sociologia surgiu. E Augusto Comte buscava entender este novo mundo que o cercava.
O objetivo do pensador francês era criar um método científico capaz de estudar e compreender a sociedade como um todo. A análise sociológica de Comte partia daquilo que ele chamou de filosofia positiva ou positivismo. Para ele, o estudo da sociedade não poderia partir de explicações baseadas em superstições ou suposições, mas da aplicação do método científico. Para a filosofia positivista o conhecimento científico era o único conhecimento verdadeiro.
Assim, para Comte a sociologia deveria atingir o mesmo rigor científico da matemática ou da física. Para isso, o sociólogo utilizaria a observação, a experimentação, a comparação e a classificação dos métodos para alcançar a compreensão da sociedade. Para ele os fenômenos sociais obedeciam à leis específicas que poderiam ser aplicadas a qualquer situação social. Contudo, o papel do sociólogo era o de coletar e analisar os dados científicos, mas sem interagir ou propor mudanças na sociedade.
A sociologia em Émile Durkheim
Outro importante sociólogo do século XIX foi o também francês Émile Durkheim (1858-1917). De origem judaica, Durkheim vinha de uma tradicional família rabínica (seu bisavô, avô e pai haviam sido rabinos), mas suas teorizações sobre a sociedade mostram a grande secularização que seu pensamento sofreu. Principalmente após entrar em contato com a ideias positivistas.
Em seus estudos, Durkheim deu continuidade às pesquisas de Comte. Contudo, o pensador acrescentou que os indivíduos precisam sofrer coerção social para se submeterem às regras da sociedade.
Na opinião dele, a sociedade necessitava ser imposta. Para isso, as leis, a religião, a escola, a cultura e a tradição formavam a base elementar na constituição da vida social e deviam servir à organização da sociedade. A função destas instituições sociais era dar identidade a sociedade, estabelecendo as noções de certo e errado.
Para Durkheim os indivíduos não deviam participar das decisões sobre as regras sociais, aos indivíduos cabia apenas o papel de se submeterem a elas. Durkheim afirmou também que a divisão do trabalho não era uma exploração, mas um ato de solidariedade do empregador para com os empregados.
Karl Marx e a sociologia
Outro importante “pai” da sociologia, foi Karl Marx (1818-1883). Marx nasceu na Alemanha no período mais brutal e competitivo de sua industrialização. O filósofo alemão presenciou a exploração a que os trabalhadores urbanos vinham sofrendo. Assim, é claro, o pensamento marxista era um fruto desta época.
Apesar de realizar uma análise muito diferente da dos pensadores positivistas, Karl Marx concordou com Durkheim no que se refere a uma sociedade que é imposta aos indivíduos. Mas acrescentou que o Estado e a sociedade estavam a serviço dos interesses daqueles que estão no poder, no caso a burguesia (industrial e comercial).
Como é a burguesia que controla o Estado, e por consequência a sociedade, também é ela quem determina as regras sociais (as leis, a tradição, a cultura, o que deve ser celebrado, o que deve ser evitado, etc.). Para Marx quem tem o poder político e econômico exerce o controle sobre a sociedade como um todo. A partir desta interpretação, o pensador conclui que a burguesia controla a sociedade em seu próprio benefício.
Entretanto, Marx salientou que nem sempre foi a burguesia quem controlou a sociedade. Ao longo da história humana muitas etapas foram vencidas, pois a sociedade é fruto da evolução dos processos produtivos, isto é, quem detém ou deteve o controle da economia (e da riqueza) torna-se o controlador da sociedade.
Se para os positivistas a sociedade deveria ser analisada e interpretada, mas nunca questionada. Para Karl Marx a sociedade é uma evolução alcançada a partir da luta de classes. Isto é, o avanço social somente ocorre com a superação de um modelo desgastado de sociedade. Foi assim que no século XVIII a burguesia superou a nobreza. Agora, segundo ele, era a vez do proletariado (trabalhadores assalariados) superarem o modelo burguês de sociedade.
Max Weber: sociologia compreensiva
Outro autor clássico da sociologia foi o também alemão Max Weber (1864-1920). Weber contrariou as interpretações positivista e marxista sobre a sociedade. Para ele a sociedade era uma construção coletiva onde cada indivíduo optava em se submeter a suas regras.
Weber afirmou que os indivíduos não sofriam passivamente a ação das instituições sociais (religião, cultura, tradição, educação, etc.). Para ele, os indivíduos fazem escolhas e opções intencionais e constroem sua própria consciência a partir do momento em que estabelecem um sentido para o que fazem.
Para Weber, a obediência a determinadas regras ou normas precisavam ser aceitas por todos. A crença na ordem da sociedade parte da aceitação de todos de que ela é legítima. O domínio da sociedade condiciona os indivíduos a crerem na legitimidade da própria dominação e, por esse motivo, se submetem a ela.
O entendimento weberiano de sociedade passa ainda pela compreensão de dois importantes conceitos: relação social e ação social. Por relação social, Weber entende uma situação em que dois ou mais sujeitos estão empenhados numa conduta, onde cada um dos participantes leva em consideração o comportamento dos demais, orientando suas ações pelo sentido que está sendo compartilhado. Já a ação social, o autor afirma ser toda a conduta e ação humana intencional que leva em conta a ação dos outros também. Em outras palavras, a ação que um indivíduo adota deve levar em consideração a ação dos outros indivíduos.
A partir destes conceitos podemos afirmar que para Weber a construção de uma sociedade melhor começa a partir do momento em que os indivíduos agem em conformidade com o que é melhor para o coletivo. Não é por acaso que os estudos de Weber tenham ficado conhecidos como sociologia compreensiva, já que ela somente é possível quando cada indivíduo compreende o seu papel na sociedade e materializa as suas ações em benefício das ações de outros indivíduos.
Entretanto não há garantias de que todos os sujeitos estejam dispostos a se submeterem a essas regras. Para Weber o regulador destas ações é a ética. Daí os conceitos de ética da convicção e ética da responsabilidade.
A ética da convicção diz respeito a ação consciente tomada pelo indivíduo que age por convicção naquilo que é melhor para o coletivo, neste caso o “melhor para o coletivo” parte das regras ou preceitos socialmente estabelecidos (leis, cultura, religião, etc.). Já a ética da responsabilidade se refere a responsabilidade que todos os indivíduos possuem ao realizarem suas ações sociais. Pois para Weber todos devem ter a consciência de que sofrerão as consequências de suas ações, sejam elas corretas ou não.
Considerações finais
Quando surgiu a sociologia tinha por objetivo compreender uma sociedade que estava em ebulição. A Revolução Francesa e a industrialização das nações europeias transformaram radicalmente a sociedade daquele continente. Devido a isso, a análise de Comte, e depois de Durkheim, passavam pela tentativa de compreender essa nova sociedade e, obviamente, refletiam essa época.
Já com Marx e Weber percebemos que a sociologia deixou de apenas tentar compreender a sociedade, para passar a propor transformações nela. Para esses autores, a sociologia deveria ser um instrumento de busca por uma sociedade mais justa e igualitária. Mas se a proposta de Marx era de uma transformação radical em Weber essa transformação deveria ser alcançada pela participação de todos os envolvidos.