quarta-feira, 6 de maio de 2020

Pensando História: O que é Revolução


PENSANDO HISTÓRIA: O QUE É REVOLUÇÃO

Geralmente a palavra "revolução" é empregada para se referir a algum tipo de mudança radical e profunda em uma determinada área da sociedade.

Por exemplo, quando alguns especialistas em Rock n' Roll se referem a Elvis Presley ou John Lenon afirmam que eles revolucionaram a música popular nos Estados Unidos e na Inglaterra respectivamente. Já especialistas em arte podem afirmar que Michelângelo e Van Gogh foram responsáveis por revolucionarem a pintura e as artes em suas épocas.

A partir destes exemplos pode-se constatar que a expressão revolução faz referência a uma mudança brusca e radical em alguma esfera da sociedade. Substituindo o modelo em vigor por algo totalmente novo.

Também é importante destacar que um movimento revolucionário é essencialmente vanguardista, isto é, está à frente de seu tempo. Por definição, uma revolução é anti-conservadora.

Mas será que é só isso?

Bom... minha intenção aqui não é a de analisar o conceito de revolução em sua totalidade de significados, mas a partir de seu caráter social, político e econômico.

Florestan Fernandes, um importante pensador brasileiro, afirmou que "a palavra revolução encontra empregos correntes para designar alterações contínuas ou súbitas que ocorrem na natureza ou na cultura”. E continua afirmando que “mesmo na linguagem de senso comum, sabe-se que a palavra se aplica para designar mudanças drásticas e violentas da estrutura da sociedade”, para ele uma revolução é um movimento que subverte a ordem social imperante numa determinada sociedade.

O Dicionário Houaiss afirma que revolução é um “movimento de revolta contra um poder estabelecidofeito por um número significativo de pessoas, em que geralmente se adotam métodos mais ou menos violentos.”

A partir destas considerações podemos definir revolução como um processo de transformação profunda nas estruturas políticas, sociais e/ou culturais de uma nação.

Já para Marx, “a burguesia desempenhou na História um papel revolucionário decisivo (...) onde quer que tenha chegado ao poder, ela destruiu todas as relações econômicas ali existentes”.

UM ótimo exemplo prático disto está no caso da Revolução Francesa. Pois neste país ocorreu uma insurreição armada que transformou completamente a sociedade e a política daquela nação. Pois nesta insurreição, a monarquia absolutista foi derrubada e um regime republicano foi instaurado em seu lugar.

A Revolução ocorrida na França obrigou a promulgação de uma nova Constituição em 1789. Que sabiamente foi denominada de Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, UMA carta de leis revolucionaria, pois acabava com privilégios anteriormente estabelecido, aos quais nobres e o clérigos franceses usufruíam por séculos. O povo que vivia em um sistema de servidão – literalmente “servindo” às classes altas da sociedade –, após a revolução passou a ser assistido por direitos.

Contudo, transformações revolucionárias deste porte não ocorreram só na França...

Já que outra revolução, igualmente importante... ocorreu na Rússia no ano de 1917.

Como afirmara Marx “As armas que a burguesia usou para abater o feudalismo voltam-se agora contra ela mesma”. Se o espectro revolucionário assustava a burguesia da Europa Central, por fim, ela correu na Rússia, um império periférico.

Apesar da revolução ter inspiração nas ideias de Karl Marx, ironicamente, ela não se opôs diretamente à burguesia, mas a uma monarquia sustentada fundamentalmente numa estrutura econômica feudal.

Mesmo assim, A Revolução Russa, liderada pelos bolcheviques, derrubou o czar Nicolau. E impôs o comunismo no país.

Assim, como ocorrera na França, no caso russo, não somente a monarquia foi destituída, mas o sistema econômico também foi radicalmente modificado.

Como revolução, o que diferencia estas duas insurreições é essencialmente a classe social que chegou ao poder. Se na França a burguesia alcançou o topo da sociedade, na Rússia este papel coube aos proletários, camponeses e operários.

Com tudo isso em mente, podemos concluir que uma revolução só ocorre quando existe uma transformação radical e profunda nas estruturas de uma área da sociedade... ou nela como um todo.

Afinal, para que uma mudança seja possível, em primeiro lugar, é preciso reconhecer que algo está errado e, por isso, precisa ser corrigido.

Mas é importante que fique claro que uma revolução parte de uma ideologia que se choque com o sistema em vigor... já que sem uma base teórica sobre o que se quer transformar numa sociedade, este movimento não passará de uma revolta popular (ou rebelião, como preferir).

Entretanto, também existem revoluções fora da esfera social ou política – mas que também interferem na economia e na cultura de uma nação – como é o caso das revoluções tecnológicas.

E o maior exemplo de todos foi – sem nenhuma dúvida – a Revolução Industrial inglesa do século 18, que provocou uma profunda transformação na forma de se fabricar objetos. Alterando a sociedade de tal forma que hoje não imaginamos nossas vidas sem o convívio com produtos industrializados.

Mas... e hoje... será que não estamos vivendo um momento histórico que nos exige mudanças?... Como aquelas em que as revolução francesa e russa experimentaram?

Pois ao mesmo tempo em que vivenciamos transformações radiais na tecnologia... Podemos constatar que ela não está disponível para todos.

O que se acentua com a chegada de uma pandemia de grandes proporções como a causada pelo coronavírus. Pandemia que desnudou nossa sociedade... mostrando as mazelas e diferenças sociais causadas por uma sociedade extremamente desigual – onde poucos têm muito e muitos têm pouco.

Será que este momento... hoje vivido por todos nós... não é o momento de uma transformação profunda em nossa sociedade? Ou será que alguém acha que está tudo bem? Que não existirão novas crises como a do covid-19?

Será que não está na hora de tomarmos consciência de que algo está muito errado com o mundo que conhecemos?

Por isso, deixo como reflexão citações de quatro mentes revolucionarias: Karl Marx, Martin Luther King, Carlos Lutzenberger e Jesus Cristo:

“Que as classes dominantes tremam à ideia de uma revolução. Os proletários nada têm a perder, exceto seus grilhões. Por outro lado, os trabalhadores têm o mundo a ganhar”. Karl Marx e Friedrich Engels (“Manifesto do partido comunista”, 1848).

“Eu tenho um sonho... que meus filhos um dia viverão em uma nação onde não serão julgados pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter” Martin Luther King (discurso “eu tenho um sonho”).

“Está claro que a espécie humana não poderá continuar por muito tempo com a sua cegueira ambiental e com sua falta de escrúpulos na exploração da Natureza”. José Carlos Lutzenberger, ambientalista.

“Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (...) “Se alguém te bater numa das faces, ofereça-lhe a outra”. Jesus Cristo (Mateus 22:39 e Lucas 6:29).


terça-feira, 27 de agosto de 2019

"O Conto da Aia" e a Distopia Bolsonarista


O CONTO DA AIA” E A DISTOPIA BOLSONARISTA

Alguns anos atrás, um dos candidatos ao governo do estado do Rio Grande do Sul, Ivo Sartori (do MDB) foi questionado sobre como ele procederia com relação ao Piso Nacional dos professores, como resposta Sartori afirmou “Quem quer piso deve ira ao Tumelero”. Tumelero, uma importante rede de materiais de construção, recebeu uma importante propaganda gratuita do emedebista. E muitos defenderam Sartori afirmando que ele estava só brincando.

Quatro anos depois, Sartori não seria reeleito e deixaria o governo gaúcho. Durante este período os professores da rede estadual não receberam nenhum aumento salarial, nem sequer reposição da inflação, e o salário base não chegou nem perto do Piso Nacional, ao contrário, aproximou-se, e muito, do salário mínimo. Infelizmente não havia brincadeira nenhuma nas palavras de Sartori.

Mas minha intenção neste texto não é falar sobre Sartori. Prefiro escrever sobre ficção, na verdade, uma ficção das boas. Por isso, vou escrever sobre uma série que está na terceira temporada: The Handmaid’s Tale ou, em português, O Conto da Aia. Série baseado no livro homônimo de Margareth Atwood. Por sinal, um grande livro, que contrariando a regra de que “o livro é melhor que o filme”, a série consegue a proeza de ser melhor que o livro.

O Conto da Aia é uma distopia. Distopias são um subgênero muito popular da ficção-científica e são o oposto das utopias, isto é, se uma utopia é um mundo futuro perfeito, as distopias são realidades futuras terríveis. Como ouvi certa vez, “as distopias são as utopias que não deram certo”. E O Conto da Aia é um destes casos.

Em O Conto da Aia somos apresentados a uma sociedade norte-americana distópica. Na trama, a maior parte dos seres humanos se tornaram inférteis. Sem ter certeza dos motivos que levaram ao despencar das taxas de natalidade, alguns grupos afirmam que o problema é resultado da crescente poluição, outros culpam as doenças venéreas.

Em meio a uma sociedade em colapso, o governo dos Estados Unidos cai, abrindo brecha para que um novo governo se instalasse. Os Filhos de Jacó, partido religioso ultra-conservador, toma o comando da nação, mudando até o nome do país para República de Gilead.

Entre as primeiras medidas do novo governo está a retirada de todos os direitos civis e políticos das mulheres. Somente os homens poderiam circular livres pelas ruas. Segundo os Filhos de Jacó, a medida era para proteger as mulheres do que quer que estivesse causando a infertilidade delas, já que para os religiosos, a infertilidade atingia somente às mulheres.

Mas o que choca não é isso.

Em decorrência da baixa fertilidade, mulheres férteis acabaram sendo escravizadas e entregues aos líderes do partido radical-religioso que estava no poder, objetivo: dar filhos aos líderes do governo. Tudo isso ocorrendo com a participação das esposas destes homens. As aias, como foram chamadas as escravas de procriação, passaram a ser constantemente estupradas em cerimônias religiosas realizadas nas casas em que estavam aprisionadas.

Para piorar, após darem à luz, elas eram separadas dos filhos e entregues a outra “família” para novamente serem estupradas, num ciclo que duraria todo o seu tempo de fertilidade.

Entretanto, a distopia apresentada em O Conto da Aia não foi algo que foi imposto da noite para o dia. Pelo contrário, conforme a trama nos apresenta revelações sobre o passado, entendemos que as pequenas mudanças que foram sendo impostas à sociedade norte-americana ocorreram de forma bastante gradual. Sem que a maioria das pessoas se dessem conta do que estava acontecendo, mudanças sociais foram sendo colocadas em prática.

Por esse motivo, ninguém pensou em fugir. Ninguém desconfiou das más intenções do partido Filhos de Jacó.

Na verdade, conforme as coisas aconteciam, muitas pessoas achavam graça ou até gostavam das propostas do novo governo. Como quando as mulheres foram proibidas de acessar suas contas bancárias, só os maridos poderiam manipular as contas. Com isso, mulheres solteiras ou viúvas tiveram suas contas bloqueadas. Mesmo assim, muitas pessoas mantiveram o apoio ao novo governo.  

Claro que quando a “corda apertou pra todos” era tarde demais.

É impressionante como nós somente percebemos o problema quando ele nos atinge.

Com exceção dos membros do partido no poder, todos os demais perderam os seus direitos civis e políticos. Milhares de pessoas foram enviadas à campos de trabalhos forçados. E, como já vimos, as mulheres férteis tornando-se escravas sexuais.

Não vou revelar mais nada sobre a série, mas se você ficou curioso, te garanto, The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia) é uma série imperdível que deveria ser assistida por todas as pessoas. Só para se ter uma ideia da qualidade da série, o programa já venceu dezenas de prêmios, entre eles estão 8 Emmys Awards e 2 Globos de Ouro.

Por que escrevo sobre esse assunto?

Por que eu acredito que já estamos vivendo numa distopia.

Mas que fique claro: eu não acredito que estejamos indo na direção da distopia apresentada em O Conto da Aia. Nosso problema é diferente, mas com resultados tão desastrosos quando os da série.

Você já ouviu algum pronunciamento de Jair Bolsonaro (ou de algum de seus ministros)? Já ouviu as ideias que eles têm sobre Meio Ambiente, Educação, Saúde, Segurança, Armamentos, Transporte, Sexo... A maioria das afirmações, se não fossem assustadoras, pareceriam piada. E muito dizem: “ele tá brincando”.  Brincando? De quê? De ser presidente? Eu é que não quero participar dessa brincadeira!!!

Tipo quando ele debochou da primeira dama francesa, Brigitte Macron. Muitos afirmaram que era brincadeira. Brincadeira? Com o quê? Com a aparência ou com a idade dela? Não entendo onde está a brincadeira!!! Por isso te pergunto: e se fosse contigo? Ou com a tua esposa? Ou com a tua mãe? Ou quem sabe, com tua filha?

Se quisermos avançar na direção inversa de uma distopia, precisamos urgentemente nos tornarmos mais empáticos e menos “engraçados”.

Por isso, comecei com a história do piso no Tumelero. Onde não havia piada nenhuma sendo contada.

Não sei se sou só eu, mas tá dando uma forte vontade de sentar num cordão de calçada qualquer... e chorar...

Marcos Faber
Professor de História